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Celina Arzamendia Silva - RA: 080.03.0317-2

RESENHA

A Filosofia Natural à Época de Newton

Mario Barbatti

por  Celina Arzamendia Silva

 

A proposta de resenha sobre o tema supra citado foi precedida de debates sobre a metodologia didática do corpo docente de ensino de Física no Ensino Médio da rede de ensino pública e privada  brasileira. Nossos professores de Física, segundo se apurou,  priorizam cálculos matemáticos abstratos e complexos em detrimento ao contexto histórico da formulação dos princípios que geraram tais fórmulas, colaborando para a extrema ojeriza e resistência à disciplina pelos jovens estudantes. A compreensão histórica, segundo conclusões do grupo e concordando com a introdução do documento resenhado, "(...) fica reduzida a meras anedotas sobre as vidas de personalidades científicas, adorações exaltadas de genialidades, esquematizações didáticas do surgimento de teorias, ou reconhecimentos de interdependências entre os desenvolvimentos científicos e sociais, mas sem clareza dos processos que as estabelecem".

Com esse pensamento, vemos que o autor do documento resenhado objetivou estabelecer um breve contexto histórico dos anos do século XVII, uma época importante para o desenvolvimento da Física, contextualizando Newton em seu tempo e centrando a atenção no pensamento de René Descartes e nas críticas dos neoplatônicos, levando o professor a questionamentos filosóficos sobre o ensino de Física.

Queria o autor traçar um panorama rápido e geral sobre a Filosofia Natural no século VII, abordando temas gerais como o papel de Deus no Universo e temas mais específicos como a estrutura do espaço, tempo e matéria, ou o estatuto da gravitação.

A Igreja e o seu papel definidor dos atos e conceitos do cotidiano no período retratado é abordado no tópico II -  Panorama Geral da Filosofia Natural no Século XVII -, onde o autor mostra, comparando diversos cientistas e pensadores, como a produção científica estava atada aos conceitos dogmáticos católicos, levando aqueles homens a produzirem teses e experimentos embasados na crença elevada em Deus, mentor da existência dos fenômenos físicos e dos seus resultados.  Mais de uma vez, vemos Mário Barbatti citar o direcionamento da compreensão dos fenômenos naturais para a matemática, onde são reduzidos à meras categorias geométricas. Segundo Mário, a marcante devoção teológica daqueles pensadores determinava a produção intelectual no período e, conduzir a compreensão dos fenômenos físicos da natureza ao  campo da matemática se justificava por ser, segundo eles, o "alfabeto com que Deus escreveu o universo".

O universo e seu funcionamento são assunto introdutório no tópico  III, Reações à Filosofia Mecânica, quando Barbatti cita Descartes e sua tentativa de explicar a dinâmica celeste através dos princípios da inércia e da conservação; segundo Descartes, Deus criou o universo dando-lhe o impulso inicial rumo ao esplendor e este prosseguiu sua trajetória independente Dele, já que se tratava de algo perfeito, pronto. Deus não criaria um ente tão magnífico, porém  inanimado, amputado, incompleto e falho, e seria obrigado a permanecer permanentemente "arrumando-o".

A relação corpo-mente e as idéias a respeito de Deus continuam a permear o embate entre físicos e seus princípios e os filósofos e suas conjecturas, como se num dado momento da história da ciência, seus figurantes teriam perdido a noção da importância de Deus no funcionamento do universo e na constituição da natureza e suas forças. O embate nascido dessa suposição vem enriquecer e, em alguns casos, alterar os conceitos científicos-físicos e dogmáticos-físicos vigentes no período.  As compreensões diversas a respeito do espaço e do vácuo, a gravidade e o magnetismo são eixos norteadores de estudos dos filósofos e físicos do período que, sempre cerceados pelo policiamento dogmático católico são conduzidos e miscigenados com princípios religiosos e até químicos.

Os filósofos do século XVII parecem terem sido influenciados por fontes consideradas hoje não ortodoxas ou ilegítimas, como as Escrituras Sagradas, a Cabala e a Alquimia. Tais influências heterodoxas, tratadas no tópico IV, são percebidas pelo autor que inclusive cita a numerologia quando os filósofos  afirmam  que a natureza do universo e suas forças naturais seriam perfeitamente compreendidas através dos números da matemática.

Continua ainda Barbatti a afirmar, quase no final do tópico IV, que a Igreja do período sofria uma certa dificuldade de legitimação junto aos intelectuais da época, embora se percebesse o teísmo presente na Filosofia Natural, já que "(...) ela não era capaz de oferecer um claro, simples e inquestionável caminho para a salvação"  e que a alquimia sofria duras críticas por, em dadas situações, negar o poder de Deus e o arbítrio humano.

Finaliza o tópico afirmando que o pensamento matemático sai vencedor, preparando terreno para o que seria o Iluminismo, um século depois e que Descartes foi o pai do pensamento, não só de Newton, mas também de Spinoza e de Kardec.

A percepção de que Deus é uma hipótese desnecessária à evolução do Universo é o ponto inicial das conclusões, no Tópico V de Barbatti, quando ele destaca que  "... O ponto central da crítica neoplatônica a Descartes é que no momento em que se separam radicalmente as coisas com extensão e as sem extensão, incluindo Deus e o mundo, a matéria tem que ser dotada de uma autonomia para organizar toda a complexidade das coisas, participando Deus somente no momento da criação", fazendo com que se encare o sistema cartesiano como uma doutrina atéia. O autor destaca ainda em suas conclusões que a Filosofia Natural no século XVII assim como toda filosofia da Idade Média cristão-islâmica era pontuada por conceitos e dogmas atrelados a uma religião e que Descartes encontra-se no centro de um momento de transição, que pretende "libertar" o pensamento e continua afirmando que, sendo o mundo cartesiano contraditório, pode ser autônomo, mas não sobreviveria sem Deus.

 

 

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