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Um
século depois de Newton, o quadro que víamos pelas
janelas de nosso trem imaginário ficou ainda mais nítido
graças ao físico escocês James Clerk Maxwell. Com a
gravidade, Newton revelara uma força que rege todo o
cosmo. Decifrando a maneira como a luz se propaga em
ondas, Maxwell (um cristão fervoroso!) mostrou outra
força universal igualmente determinante: o
eletromagnetismo. O primeiro definia o comportamento
da matéria, o segundo explicava o da energia. Pronto:
com esses dois “princípios causais”, como
Polkinghorne os chama acima, estava criada a ilusão
de que todos os mecanismos da natureza estavam
desvendados.
Ricardo Galvão, do Instituto de Física da
Universidade de São Paulo – que se diz “bastante
religioso” – aponta onde nosso trem tomou um rumo
inesperado. “O determinismo nos fazia acreditar que,
conhecendo as condições iniciais de um evento ou
sistema, poderíamos prever toda sua evolução
futura”, afirma ele. “Mas, ainda no final do século
passado, o francês Henri Poincaré inaugurou a matemática
do caos, tocando no problema de que essas condições
iniciais nunca são bem conhecidas: sempre existe um
grau de imprevisibilidade”. Aí, veio a mecânica quântica
e introduziu o conceito de que é impossível conhecer
simultaneamente a posição e o movimento de uma partícula.
É o chamado Princípio da Incerteza de Heisenberg,
que derrubou de vez aquela atitude cientificista do
tipo ‘conhecemos tudo e podemos prever o futuro’.
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Foi
justamente o Princípio da Incerteza que fez Einstein
soltar, em protesto, sua frase mais famosa: “Deus não
joga dados!” A imprevisibilidade quântica era
demais para ele aceitar. Einstein, como se sabe,
falava o tempo todo em Deus – até o dia em que o
encostaram na parede e perguntaram se ele acreditava
mesmo no Dito Cujo.
“Acredito
no Deus de Spinoza, que se revela na harmonia e na
ordem da natureza, não em um Deus que se preocupa com
os destinos e as ações dos seres humanos”,
respondeu o criador da Teoria da Relatividade, citando
o filósofo holandês do século XVII para quem Deus e
o Universo seriam a mesma “substância”. |
A
definição de Einstein decepcionou muita gente –
John Polkinghorne, inclusive – por excluir o que
costuma se chamar de “Deus pessoal”. Assim, até
um ateu convicto como Carl Sagan aceita a divindade.
“A idéia de que Deus é um gigante barbudo de pele
branca, sentado no céu, é ridícula. Mas se, com
esse conceito, você se referir a um conjunto de leis
físicas que regem o Universo, então claramente
existe um Deus. Só que Ele é emocionalmente
frustrante: afinal, não faz muito sentido rezar para
a lei da gravidade!”, dizia Sagan.
Carl Sagan foi um dos raros cientistas a se declarar
ateu. A grande maioria prefere o termo “agnóstico”,
criado em 1869 pelo biólogo inglês Thomas Huxley –
aquele que ganhou o apelido “Buldogue de Darwin”,
por sua incansável defesa da Teoria da Evolução,
frente aos ataques do clero. Há uma grande diferença
entre as duas posições: dizer-se ateu é recusar a
existência de um Deus, enquanto o “agnosticismo”
(“sem conhecimento”, em grego) significa admitir
apenas que não se sabe nada sobre dimensões
sobrenaturais no Universo – e que o mais provável
é que seja impossível superar essa ignorância. É
essa combinação exemplar de humildade e diplomacia
que define até hoje a postura de quase todos os
cientistas não-religiosos.
Mesmo
assim, o americano Allan Sandage – um dos astrônomos
mais respeitados mundialmente, hoje com 74 anos –
considerava-se ateu com todas as letras, até os 50
anos. Sua conversão ao cristianismo veio de repente,
provocada pelo “simples desespero de não conseguir
responder só com a razão a perguntas como ‘por que
existe algo em vez de nada?’ ”
“Foram
meu trabalho e minha pesquisa que levaram à conclusão
de que o mundo é muito mais complicado do que pode
ser explicado pela ciência. Só através do
sobrenatural consigo entender o mistério da existência”,
afirma ele. “A ciência torna explícita a incrível
ordem natural, as interconexões em vários níveis
entre as leis da física e as reações químicas
encontradas nos processos biológicos da vida. Por que
os elétrons têm todos a mesma carga e a mesma massa?
A ciência só pode responder a questões bem específicas,
do tipo ‘o quê?’, ‘quando?’ e ‘como?’. O
seu método de investigação, por mais poderoso que
seja, não pode responder ao ‘por quê?’. ”
Enxergar
Deus na inteligência com que a natureza se organiza
– manifesta em leis matemáticas – não é só a
porta de entrada da religião para cientistas
contemporâneos como Sandage e Polkinghorne, como uma
tradição que vem desde a própria raiz do
conhecimento científico. Nem o ateísmo confesso de
Bertrand Russell – lógico, matemático e filósofo
reconhecido como um dos pensadores mais brilhantes do
século XX – o impediu de valorizar essa linha
peculiar de devoção: “A combinação de matemática
e teologia, que começou com Pitágoras, caracterizou
a filosofia religiosa na Grécia antiga, na Idade Média
e chegou à modernidade com Kant. Tanto em Platão
quanto em Santo Agostinho, São Tomás de Aquino,
Descartes, Spinoza e Leibniz há essa ligação íntima
entre religião e razão, entre aspiração moral e
admiração lógica do que é atemporal”.
Para
quem compartilha desse espírito pitágorico, o melhor
retrato de Deus já não está nas pinturas de
Michelangelo e sim nas fractais – aquelas imagens
geradas por equações matemáticas que estão entre
as mais incríveis descobertas relacionadas à Teoria
do Caos. Essa nova geometria, até então oculta na
natureza, apareceu – entre as décadas de 60 e 70
– tanto nos estudos das variações climáticas
realizadas pelo metereologista Edward Lorenz, quanto
nas estatísticas visualizadas em computador pelo
matemático Benoit Mandelbrot. O que as fractais
mostram – e que, para alguns, adquire um caráter de
revelação divina – é que processos aparentemente
irregulares como a ramificação de uma árvore, ou o
recorte geográfico de um litoral, seguem um desenho
padrão que, por sua vez, obedece a uma fórmula matemática
que pode ser deduzida.
Mais
ou menos na mesma época – começo dos anos 70 –
um jovem físico chamado Fritjof Capra estava sentado
na praia quando teve uma espécie de êxtase místico,
provocado pela visão das ondas em sincronia com sua
respiração. O resultado dessa sua experiência está
em O Tao da Física, best-seller que, apesar de
desprezado pela comunidade científica, foi um dos
detonadores do movimento new age, explorando todos os
paralelos possíveis entre a física quântica e as
principais religiões orientais: hinduísmo, budismo e
taoísmo. Não faltam, inclusive, citações dos próprios
Werner Heisenberg e Niels Bohr – dois dos pais da
mecânica quântica – sobre as semelhanças entre
suas descobertas e a filosofia contida nestas tradições
religiosas.
O
conceito chinês do Tao, destacado no título do livro
– algo como fluxo ou ritmo universal – não só
espelha a “dança cósmica” que Capra vê na física
quântica. Pode igualmente ser associado aos padrões
da natureza revelados pelas fractais. Mas sua inspiração
inicial mostra uma das principais limitações da ciência
nesse tipo de comparação. O método científico
renega o conhecimento que depende de experiências
pessoais e intransferíveis, como o transe de Capra à
beira-mar. O físico Guimarães Ferreira, da Unicamp
– outro cientista brasileiro a se declarar religioso
– acredita que esse é um bom motivo para não se
misturarem as duas coisas: “Deus é um Ser que gosta
de ser pessoal”, diz ele. “É muito mais fácil
encontrá-lo em nossas experiências de vida do que no
laboratório. O maior pensador do mundo ocidental,
Santo Agostinho, já dizia que é mais fácil
encontrar Deus dentro de si do que no mundo
exterior.”
No
outro extremo está o físico Frank Tipler, que
acredita que a ciência pode – e deve – ser
utilizada para provar a existência de Deus, como
princípio criador, organizador, onisciente,
onipotente etc., como rezam as escrituras. Tipler
escreveu todo um livro, The Physics of Immortality
(1994), apresentando a versão mais radical de uma visão
compartilhada com mais cautela tanto por John
Polkinghorne e Paul Davies, quanto pelos cientistas
que apóiam o Princípio Antrópico – a mais
surpreendente teoria dos últimos tempos. Para eles, o
modo como o caos gera ordem e como todo o cosmo
conspira a favor da existência de vida revelam
atributos divinos como consciência e intenção. A
vida, assim, deve ser vista como nada menos que um
milagre; e a vida consciente, um milagre maior ainda.
O Princípio Antrópico postula que o Universo foi
criado da maneira que o percebemos para ser observado
por criaturas inteligentes – ou seja, nós mesmos
– e que é essa consciência que seleciona uma
realidade concreta entre todas as probabilidades quânticas.
Não custa lembrar que Brandon Carter, que apresentou
pela primeira vez o princípio antrópico em 1973, não
é nenhum guru aloprado e sim um cientista respeitadíssimo
entre seus pares por suas pesquisas na linha de frente
da nova física.
A
teoria mais aceita para explicar a origem do Universo
– a explosão de uma bola de energia – também
vale para esses estudiosos como sinal de uma criação
intencional e inteligente. Como diz o próprio astrônomo
que batizou essa teoria de Big Bang, o inglês Fred
Hoyle: “Uma explosão num depósito de ferro-velho não
faz com que pedaços de metal se juntem numa máquina
útil e funcional”.
E o que teria existido, então, antes do Big Bang? Os
físicos são unânimes em dizer que é impossível
saber. Enquanto houver mistérios intransponíveis
para a mente humana, idéias de divindade não só
sobrevivem, como proliferam – até atualizadas
cientificamente. Quando Stephen Hawking fala de uma
“teoria completa” que nos permitiria conhecer a
“mente de Deus”, está se referindo à busca
principal da física no século XX: um modelo que
unifique a Teoria da Relatividade, que explica o
movimento dos corpos celestes, e a mecânica quântica,
que descreve o outro extremo – energia e matéria na
dimensão subatômica. Aqui reside um dos mais
chocantes enigmas quânticos: ondas de energia podem
se comportar como partículas de matéria e
vice-versa.
A própria mente humana – acreditam psiquiatras e
neurologistas – guarda mais mistérios que o
Universo lá fora. Como afirma o físico brasileiro
Newton Bernardes, da Unicamp, sem nenhuma crença
religiosa: “A ciência depende da linguagem. A
religião, não. Ela está no campo do indizível e aí
temos que abandonar a razão: só resta a fé. Mas
pode existir, sim, conhecimento sem linguagem. Essa é
uma limitação da ciência”.
Seu colega Ricardo Galvão pondera a localização
exata de um conhecimento sem linguagem: a
criatividade, presente tanto na arte quanto na ciência
mais exata. “A própria Teoria da Relatividade, é
difícil imaginar como Einstein chegou a ela – não
foi por pura dedução matemática. Idéias científicas
precisam depois ser formuladas matematicamente, mas na
hora surgem muitas vezes de um estalo.” E de onde,
então, vêm essas magias chamadas intuição e
inspiração? Existem hipóteses, é claro, como o
inconsciente de Freud. Mas, por enquanto, só Deus
sabe.
extraído
de:
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